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Dança das sombras

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Fonte: YouTube  Por: Matheus Lima Em meio ao silêncio da noite, um grito abafado escapa, perdido entre as sombras de pensamentos densos e pulsantes. A voz, embargada, ecoa apenas dentro de si mesmo, como se o peito fosse um grande abismo onde palavras caem sem nunca encontrar solo. “Alguém me ouve?”, pergunta, mas o vazio responde com um silêncio cortante. Todos os dias são um ciclo eterno: o despertar, os mesmos passos que levam à faculdade, a volta para casa e o repouso cansado sobre um travesseiro que nunca traz descanso. As horas, os minutos, tudo segue repetindo-se em um tempo sem fim, enquanto o mundo ao redor parece girar em um ritmo que ele não pode acompanhar. À beira do precipício, ele se questiona. Existe mesmo um fundo neste abismo? Ou tudo isso não passa de um reflexo de seu próprio caos interno? Talvez seja uma visão apenas sua, algo que a mente construiu para justificar a dor surda que nunca cessa. Pensa se tudo isso seria um tipo de punição divina, como se exist...

Matinta Perera

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Fonte: Lenda Sombria Por: Mauro Lopes Leal Ela avançou sobre a noite, arrastando seus farrapos sobre as poças de água que refletiam uma lua vermelha, singular. Cães ladravam perto dos postes de luzes fragmentadas, farejando os passos daquela mulher que se confundia com as próprias sombras, tornando-se também elemento essencial de uma paisagem silenciosa, porém urbana. As casas, sonolentas, guardavam dentro de si trabalhadores fatigados, exaustos pelo serviço e exploração. Não havia tempo para sonho, devaneio, apenas repouso tumular, posto que a vida se tornou uma máquina, que range, oscila fumegante e produz de forma incansável. “Durmam”, sussurra a mulher de longa cabeleira negra. E suas unhas arranham os muros, os portões de ferro. Seus pés, desnudos, alternam-se ágeis, sombrios, entre vielas que traduzem uma soturna e estranha esperança. De quê? Impossível saber. Não há tempo para refletir, não há meios de se libertar. Daqui a meia hora a turba começará a se movimentar, enferma, dóc...

Mãos Sujas

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Fonte: Freepik  Por: Julie Christie Adalberto não nascera desajeitado, por isso não compreendia por que as pessoas ao seu redor faziam tanta questão de recordá-lo daquele fatídico episódio, o qual ele gostaria de, absolutamente, esquecer. E o mais triste é que em todas as ocasiões que a mera lembrança daquele acontecimento era evocada, a sua repulsa pelo ser humano aumentava. Sentia um desejo incontido e crescente de que todos ao seu redor desaparecessem. Sem rastros, não haveria culpa, pensava. O que, para ele, parecia um projeto de simples execução, em um âmbito concreto, tornava-se quase impraticável dado o esforço hercúleo que exigiria de sua parte. No seu atual estado, o menor esforço seria objeto do mais profundo terror. Por conta disso, previa que a sua mísera existência permaneceria mergulhada na mais torturante escuridão. Mas por quê? Sentia um peso sem precedentes. Pesava-lhe o ventre, os nervos, a alma. Tudo o exauria. Não conseguia mais caminhar direito, correr seria im...

Lunar

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Por: Mauro Leal A criança chorava no berço, mas os demais pareciam não ouvir nada, entorpecidos que estavam diante da lua que, através da janela quebrada, parecia entrar no humilde quarto e envolver a todos com um hálito gélido que convidava ao sono. A mulher bocejou, estava exausta por tantas tentativas infrutíferas de fazer a criança comer um pedaço de pão, mas ela era pequena demais, demasiadamente. Se tivesse mais alguns meses, poderia colocá-la sentada na cadeirinha de plástico, aquela que a vizinha jogou fora dia desses, e poderia ensiná-la a comer devagarinho... mas quem ela estava tentando enganar, não havia nada naquela noite. Talvez fosse melhor dormir e aguardar que amanhã fosse um dia melhor, esplêndido, como nos filmes que ela assistiu quando criança na casa da madrasta, ou da tia? Não importa agora, eram filmes muito alegres, felizes, desses nos quais tudo acaba bem, em abraço, corrente de felicidade.  Coçou-se e não percebeu que arranhou o seio flácido e seco. É clar...