Inversão narcísica
Fonte: Extra Classe Por: Bárbara Duarte Denise andava ensimesmada, mergulhada em pensamentos intermitentes, ideias fixas, sem conseguir achar uma solução. Não ia a lugar nenhum, pois nem sabia de onde partira. Apenas remoía um fato nítido e tão forte quanto o abalo de uma exposição pública: ela não conseguia olhar o seu reflexo no espelho. Comparava essa sensação ao dia em que a sua calça rasgou enquanto descia de um ônibus lotado. No ônibus, Denise não conseguia disfarçar o olhar admirado em direção a dois estudantes de medicina de uma faculdade pública. A moça, uma jovem de beleza invulgar, olhar altivo e vivaz, conversava animadamente com seu colega, de igual desenvoltura. Ambos perceberam os pensamentos inconfessáveis de Denise, taciturna e acabrunhada, deixando-se trair por sentimentos mal contidos. O som metálico do peso de sua bolsa despencando no chão a despertou do torpor da atração que aquelas duas figuras lhe provocaram e, num átimo, ela juntou seus pertences e saiu ...